Você acorda todos os dias com a vontade de ser uma pessoa equilibrada, a mulher maravilha, que vai conseguir dar conta de todas as atividades que programou, dividindo o tempo entre a família, trabalho, saúde, amigos, esportes, lazer e ainda tentar ajudar a salvar o mundo?

O dia a dia da mulher empreendedora (e principalmente da mãe empreendedora) é muito corrido. E tentar se sentir uma pessoa equilibrada pode gerar alguns sentimentos desconfortáveis.

Por que achamos tão importante equilibrar todas as áreas da vida? Estar equilibrada traz uma sensação de estabilidade e segurança, mais tranquilidade e o sentimento de dever cumprido.

Equilibrar significa igualar, contrabalançar, sustentar-se. No sentido figurado, significa prudência, moderação, domínio de si mesmo.

No início da minha carreira, no mundo corporativo, tive a oportunidade de participar de algumas palestras proporcionadas pelas empresas, para que nós, principalmente as mulheres, aprendêssemos a equilibrar nossas vidas pessoais e profissionais. Naquela época a internet ainda estava surgindo no Brasil e parecia muito mais fácil separar as áreas da vida. Se você estava na empresa era esperado que você dedicasse todo o seu tempo ao trabalho. Quando você voltava para casa era o momento de ficar com a família. O local para estudar era a escola ou a faculdade. Simples assim.

Só que na era digital as coisas parecem um pouco mais complicadas, e alguns fatores contribuem para que isso aconteça.

Tecnologia

A mobilidade trazida pela internet e os dispositivos eletrônicos contribuiu para dificultar essa busca pelo equilíbrio, uma vez que você tem a possibilidade de conectar e acessar um grande volume de dados e informações a qualquer momento e em qualquer lugar. A tecnologia invadiu nossas vidas. Hoje é mais complicado separar o tempo do trabalho, estudo e família. Muitas vezes é tudo junto e misturado.

Para conseguir enfrentar esse conjunto de atividades simultâneas e concorrentes precisamos aprender a lidar com diversos sentimentos, como por exemplo: a culpa de não conseguir ficar mais tempo com a família e com os filhos; a decepção por não conseguir executar todas as atividades e responder todas as mensagens e solicitações; a frustração de não conseguir estar no controle; a sensação de impotência diante de tantos recursos tecnológicos que não sabemos usar direito; o medo de exposição nas redes sociais e o julgamento das pessoas; a preocupação de não estar agradando ou não estar sendo compreendido; a tristeza de ver os nossos sonhos sendo adiados indefinidamente.

Podemos pensar que “não devemos deixar que a tecnologia invada nossas vidas pessoais”, mas na prática não é tão fácil assim. Existem diversos movimentos e eventos, cursos e treinamentos, principalmente de finais de semana, em que as pessoas desligam seus celulares e vão curtir a vida, refletir, meditar, esquecer um pouco desse mundo digital. Ficar alguns dias sem o celular ou se desligar das redes sociais pode ser até interessante, mas você não pode se isolar em uma bolha ou se trancar dentro de uma caverna. Você precisa aprender a conviver no mundo digital e com mudanças constantes. Você precisa aprender a lidar com a tecnologia no seu dia a dia, de forma com que ela seja um apoio e te ajude a ser mais produtiva.

Atividades domésticas

Nicholas Carr, em seu livro “A grande mudança”, explica de uma forma muito interessante como a mulher absorveu uma carga de trabalho muito grande com o surgimento da indústria elétrica e o lançamento de produtos domésticos que prometiam revolucionar a sua vida. Na verdade o que aconteceu foi que, junto com a tecnologia que trouxe a promessa de economia de tempo, veio a pressão por fazer mais e melhor, por conhecer todos os novos equipamentos e estar atualizada tecnologicamente.

O fato é que as mulheres acabaram tendo uma sobrecarga de trabalho adicional. Mesmo com o lançamento dos aparelhos eletrônicos maravilhosos da época, como o ferro de passar roupa e enceradeira, 11 anos depois a média de tempo gasto com tarefas domésticas se manteve entre 50 a 60 horas por semana. E foi nessa época que as mulheres perderam a ajuda dos maridos e alguns empregados, uma vez que os aparelhos revolucionários prometiam fazer com que a “rainha do lar” fosse mais produtiva e não precisasse mais de tanta ajuda.

A carga de trabalho doméstica das mulheres continua alta, representando uma parcela significativa do seu tempo. Uma pesquisa do Insper, de 2014, cita que as mulheres dedicam em média 25 horas semanais para o trabalho caseiro.

Foco

Gary Keller e Hay Papasan, em seu livro A única coisa, dizem que “no mundo do sucesso profissional, não se trata de quanto tempo extra você emprega: o ingrediente-chave é em que você foca esse tempo. Para conquistar um resultado extraordinário, você tem que escolher o que mais importa e dedicar-lhe todo o tempo necessário. Isso requer ficar extremamente fora do equilíbrio em relação a outras questões do trabalho.” Eles sugerem substituir a palavra “equilibrado” por “balanceado”. “A sensação de perda de equilíbrio acontece quando algumas coisas importantes são deixadas de lado, e deixar coisas por fazer é o preço que se paga para conseguir resultados extraordinários.”

Priorizar atividades e manter o foco é fundamental para que você não fique investindo todo o seu tempo fazendo malabarismos de todas as áreas e tendo a impressão de não estar chegando a lugar nenhum.

Logo que me mudei para São Paulo, presenciei uma daquelas chuvas torrenciais. Era verão e fazia um calor muito forte. Enquanto eu ficava admirando a chuva na varanda, que trazia um momento agradável de frescor, não me dei conta que a janela dos fundos estava aberta e alagando a área de serviço. Com as áreas da nossa vida acontece a mesma coisa. Devemos ter o nosso foco e atenção plena em uma das áreas, mas sem deixar de ter a consciência do que está acontecendo nas outras áreas, para não termos prejuízo nem ficarmos perdendo tempo depois consertando alguns estragos.

Todas as áreas da sua vida são complementares e se conectam. O grande desafio é fazer as combinações corretas nos momentos certos, para que ao longo do ano você consiga dar atenção a todas elas. A sensação de que existem mais obrigações, atividades e compromissos do que tempo disponível sempre vai existir, e você tem que aprender a lidar com isso.

Se você criar a expectativa de que vai conseguir o equilíbrio entre todas as áreas em todos os momentos pode acabar frustrada e desanimada. Mas se você tiver uma consciência plena dos objetivos, metas e resultados esperados em cada área, e aplicar técnicas de produtividade, você vai atribuir a importância necessária que cada área precisa no espaço de tempo adequado. E no “conjunto da obra”, você vai acabar se organizando de forma tal que ficará com a sensação de ter conquistado o tão sonhado “equilíbrio”.

Adelaide Giacomazzi
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