Nasci em berço de ouro, mas o berço quebrou.

Senta que lá vem história…

Meus avós vieram da roça, tentaram construir uma vida na cidade grande, mas não tinham muita opção. Com muito custo, criaram seu “império” na favela.

Começaram com casa de barro, aquele barraco simples, e com muito trabalho conseguiram um loteamento na mesma área e construíram um prédio para a seus 3 filhos morarem com dignidade.

Nesse momento, meus pais se conheceram.

Minha mãe já trabalhava desde os 14 anos e meu pai na luta de se formar e ser um cara de sucesso. Inteligência não faltava, só não tinha encontrado a pessoa certa para dar o incentivo.

E aí começa o conto de fadas… Casaram, ficaram ricos, de verdade (rs), e viveram felizes até onde deu.

A separação foi o marco de sair da vida boa e encarar a realidade que minha família materna sempre viveu.

Nesse momento eu tinha 5 anos, indo morar na casa dos meus avós, vendo minha mãe ter que voltar a trabalhar para poder me dar uma formação para o futuro.

Por sorte não era daquelas crianças problemáticas que, mesmo mimada, ficava pedindo as coisas.

Eu, de certa forma, me contentava com a situação, mas sempre muito observadora e moldando minha personalidade.

Aos poucos conseguia entender a realidade que vivia.

Em pouco tempo meu pai sumiu, nos deixou sem nenhum auxílio emocional e muito menos financeiro.

Eu vivia uma realidade que não era a minha.

Nada contra morar na favela, tenho orgulho de onde venho, mas viver aquela realidade era cruel e limitadora demais.

Eu queria minha independência, viver em uma família religiosa e conservadora era mais um fator limitante.

Eu queria conhecer o mundo, e isso não significava que o mundo iria me corromper.

Foquei em estudar e aprender ao máximo tudo que eu poderia fazer da vida.

Por sorte eu tinha vários exemplos em casa.

Meu avô um pedreiro e mestre de obras guerreiro. Construiu com a própria mão o que hoje, a família chama de lar. E claro, nos ensinou a fazer de tudo.

Se for para fazer uma obra pode me chamar que não tem tempo ruim. Parte elétrica?! Sou o faz tudo de casa.

Minha avó, quando veio de Campos para morar no Rio de Janeiro, trabalhou como costureira em uma grife em Copacabana. E claro, ela ensinou tudo que sabia para as filhas e por consequência para mim. Comigo já não conseguiu passar muita coisa devido à falta de visão que a diabetes causou. Mas o legado ficou.

Minha mãe e tia trabalharam com a parte de departamento pessoal e administrativa. A primeira com foco em restaurantes e a outra em uma fábrica de roupa.

Olha a moda aí forte na veia familiar? (Você vai entender mais para frente)

Meu tio um criativo e ótimo fotógrafo.

Digo, e acho que posso ter lido isso em algum lugar, que foto é muito mais o dom que a teoria. Um olhar criativo faz qualquer cenário virar uma obra de arte.

(Olha aí a veia artística, explicarei mais tarde também)

Meu pai, o famoso “cabeçudo”. Um cara mega inteligente, engenheiro químico que estava prestes a fazer carreira fora do país. Mas aí não teve cabeça. Deixou o poder falar mais algo e por “destino” ou “aprendizado” perdeu tudo.

Morrendo sem ter conquistado nada de concreto em sua vida.

Nesse momento estava com 14/15 anos e meu foco era fazer engenharia química. Freud explica!

E olha que eu era boa.

Sempre estudiosa, focada em ser boa, pois a cobrança que eu tinha era absurda.

Era a única que saía daquela comunidade para estudar em colégio particular. Não podia me dar o direito que jogar o dinheiro suado fora.

E assim cheguei até o vestibular ficando no “quase aprovada” por pouco. Na última tentativa eu fiquei por 1 na reclassificação da UFRJ.

Aí foi a hora de orientação e tentar outras coisas.

Eu já era boa com computador, ficava de madrugada, usando internet discada, nos bate papos do MIRC fazendo programas com os nerds da rede.

Mas pensar em fazer isso para ganhar a vida? Nunca!

Com essa idade eu fazia bico na gráfica do ex marido da minha mãe, mas nem sonhava que aquilo era função de Designer Gráfico.

Nessa fase eu me arriscava em alguns desenhos. Fazia por hobby, mas até que eram legais (rs). Com a correria esse dom ficou esquecido. Uma pena.

Foi quando comecei a reformular meus planejamentos de vida.

Até então que queria ir para Paris fazer perfume (sonho pouco né?!)

Então, como os cursos de engenharia química no Rio de Janeiro estavam fechando e não formando quase ninguém, fui tentar a área de informática.

De fato não fazia muita ideia do que me esperava, mas desde o primeiro período da graduação, me achei.

Fui me especializar em uma área dominantemente masculina. Eu queria programar… fazer sistemas de computador.

Descobri que meu raciocínio lógico era algo bem desenvolvido e isso explicava muitas das minhas características que diziam que não eram femininas.

Fiz estágios, consegui o primeiro emprego, fui promovida, fiz minha pós graduação em Engenharia de Software e os cursos em gestão de projeto até que cheguei a líder e coordenadora de projetos.

Além disso, comecei a escrever em 2008. Era um blog sobre amenidades. A coisa foi crescendo e recebi convites para ser colunistas em alguns sites. Colocar meus pensamentos e experiências em texto foi uma maneira que consegui equilíbrio. A mente vive a mil e uma hora eu iria surtar.

Em paralelo, comecei um projeto pessoal para minimizar o problema que eu tinha com o consumismo.

Eu comprava mais que o dinheiro dava e não usava nem metade das coisas.

Imagina o quanto uma mulher e uma viciada em tecnologia pode gastar no ano?!

Dobra esse valor!

Fui obrigada a me desfazer das coisas e o melhor seria ganhar algum dinheiro nisso.

Na terapia eu acabei descobrindo que era minha válvula de escape. Mas até hoje preciso me controlar. Se estou feliz eu compro para me presentear, pois no final: “eu mereço”.

Se estou triste, eu compro para ficar feliz, pois no final: “eu mereço”.

E aí surgiu um grupo de troca e venda chamada Bazar Tem Quem Queira.

Ele foi crescendo. Nunca me passou pela cabeça que ele seria minha paixão. No início, eu confesso que tinha vergonha do nome. Beleza, eu que dei o nome, mas foi sem pensar. Veio na cabeça.

Hoje, muitas pessoas falam que acham a marca Bazar TQQ demais. Eu dou risada, pois acho bem sem graça. Mas é minha, tem a minha cara.

O que eu não conseguia vender para as amigas e nas reuniões que eu fazia na minha casa com convidados de amigas, eu comecei a vender na internet.

A coisa foi crescendo. As pessoas começaram a pedir para eu vender os itens delas.

Com muito acerto e erro eu fui criando o meu padrão de trabalho.

Houve a necessidade de criar a empresa. Como autodidata fui descobrindo tudo que eu precisava fazer.

Muitas portas se fecharam. Outras nem sequer abriam. Fui e ainda sou discriminada por vender produtos usados e novos.

A palavra brechó é vista com desprezo no Brasil, mas a culpa é de muitos empresários.

Decidi mudar essa cultura que temos.

Vendo produtos modernos, na moda, ou clássicos, de marca ou não, alguns de fabricação própria, de fabricantes nacionais e internacionais, mas que estejam próprios para o uso.

Eu não compraria algo rasgado, com defeito ou fedendo a mofo, então prestamos bastante atenção no nosso processo de avaliação e curadoria.

Consegui vencer barreiras. Muitos eventos de moda que disseram não para o meu projeto, hoje nos convidam para participar. Alguns, claro, mantém a ideia de moda sustentável ser propaganda negativa.

Com o bazar ouvi muitos relatos parecidos com o meu. Então achei necessário me especializar em algo que pudesse dar dicas e ajudar pessoas que acumulam sem necessidade ou compram por impulso. Então fiz o curso de moda, consultora de moda e personal organizer.

Agora, digamos, completa, consigo entender a real necessidade de uma cliente, prestar um serviço mais completo e ampliar minha visão.

Sabe aquele papo de vendedor?! Ah, o cliente tem que comprar para faturar. Não importa se ficou legal ou não?! Isso não faz parte da nossa prática.

Quero fidelização e confiança. Quero que meu projeto seja diferente e por isso necessário.

Lucro é bom e necessário, mas faturamento certo todo o ano é o mais importante.

Aos poucos vou conseguindo me achar. Talvez nos próximos anos eu mude mais uma coisinha. Vai saber?! Não me limito a nada.

Mas esse ano eu achei que ainda faltava algo. Minha marca deveria gerar conteúdo e por isso surgiu a BazarTQQ Magazine. Uma revista digital gratuita voltada para o mundo feminino. Suas edições você acha aqui!

Depois de abrir a empresa, de fato, uma lembrança me veio à cabeça que estava esquecida.

Em uma das provas do vestibular, eu fui entrevistada por um jornal. E o rapaz, ao me chamar, de cara perguntou: “Você fez prova para moda, né?!”

É… Eu tentei fugir, mas não deu!

Muitos não entendem como eu consigo fazer tudo isso ao mesmo tempo. Mas para mim, o tempo que deixo de “produzir” algo, é jogado fora.

Aprendi que não sou igual a muita gente e, hoje, me sinto feliz em perceber isso.

Não há nada que você não possa fazer. Você pode não saber fazer, talvez não tenha aquela habilidade, mas se for dedicado e persistente conseguirá.

Umas coisas serão mais fáceis que as outras, mas quando dizemos que “isso não é pra mim”, deixamos de conhecer um novo mundo. E talvez esse conhecimento seja o que faltava para a gente se apaixonar pela vida.

Priscila Cardozo
Engenheira de Software
CEO e Fundadora do Bazar Tem Quem Queira
Consultora de Imagem e Estilo
Personal Organizer
Colunista e Escritora